Eu quis protocolar o sentimento,
dar nome, fundamento e conclusão,
lavrar em ata o nosso entendimento,
anexar testemunhas à paixão.
Redigi pareceres sobre o afeto,
consultei a jurisprudência do querer,
busquei na gramática um termo correto
que explicasse aquilo sem doer.
Revisei cada vírgula do passado,
corrigi nossas falhas de expressão,
fiz emendas no texto mal redigido
e pedi nova vista ao coração.
Cheguei a consultar o dicionário,
procurando uma definição cabal:
se amar alguém pudesse ser contrário
a alguma norma de direito natural.
Elaborei recursos, fundamentos,
apresentei razões para ficar;
mas o amor não recebe documentos,
não há protocolo capaz de o obrigar.
Então procurei a psicologia,
a filosofia, a ciência e a razão;
cada qual me entregou sua teoria,
nenhuma me devolveu teu coração.
Fui atrás da mais precisa nomenclatura,
quis transformar saudade em conceito;
mas toda explicação parecia escura
diante do fato simples e imperfeito.
E descobri, depois de tanta norma,
de tanto argumento e erudição,
que o coração não segue uma reforma,
não respeita parecer nem legislação.
Ele não quer saber de circunstância,
não calcula probabilidade ou razão;
não reconhece mérito, prazo ou distância,
nem aceita recurso contra a decisão.
Talvez por isso eu tenha escrito tanto:
para fazer da dor alguma ciência,
como se um nome elegante ao pranto
lhe desse alguma espécie de coerência.
Mas há verdades que não pedem tese,
nem precisam de artigo ou explicação.
Há coisas que, por mais que a gente pese,
continuam simplesmente sendo o que são.
E depois de tanto procurar palavras,
de tanto querer compreender o que senti,
a vida, com sua ironia deslavada,
me deixou somente isto para admitir:
eu poderia explicar por que te amo
em mil tratados, com toda precisão.
Mas no fim de toda essa burocracia,
a única coisa que sei dizer
é que eu te amo.
E isso, infelizmente,
não precisa de fundamentação.