O ARREMATE DE UMA HISTÓRIA
Uma história nunca falece, perece e jamais morre nas masmorras da vida, quando o pensamento transborda pela cachola do escritor, há quem chora, há quem sorri. Uma língua sempre conta, um conto em dialetos, idiomas, códigos indignos, dignos do azul.
Quando a relação se dilui com a separação, os pedaços dos corpos se espalham feitos cacos de sentimentos, é peito ferido, um coração partido porém, livres nos braços do arbítrio.
O silêncio fala mais que o nascer do sol, em prol da lua, que romantiza o que antes era brilhante, agora chora emocionada, representada pelas gotas de orvalho na penumbra gélida da madrugada.
Um comboio de luz que o vento apagou; até as ondas do mar não querem encrespar, como sinal de luto, uma luta desleal entre a razão e a emoção foi travada.
Um solo em fá ou em sol mesmo, nos arpejos, sustenidos e bemois vos digo que “é nois”, são os lençois perfumados, um cheiro híbrido da vossa essência de mulher, que o tempo não apaga nem por incapacidade, nem por maldade. O mundo é um mar de marujos mil, corações sutis em guerreiros gentis, em terra firme tudo muda, até o mudo solta a voz e fala.
A palavra, quando nasce da ferida, não pede passagem: arromba a garganta com um “bass”, grave, alto. É o peito que se transforma em caixa de ressonância, ecoando o tom menor das lembranças que não pediram permissão para ficar e aí estão. O amor com o título de vitalício, não morre de uma vez; ele vai desbotando, descambando pelas tabelas devagar, peça por peça, no varal dos dias comuns. Nem a rosa perde a cor, mas guarda a forma e o cheiro do prazer.
Nessa travessia marítima, o algoritmo fica descalço sobre os próprios pedaços, e descobre-se a estranha beleza do recomeço. O bom marinheiro não teme o nevoeiro e sobrevive à tempestade, não pede arrego e aprende a parar o vento, ensina a ajustar as velas no meio do caos da mente. A dor é solo fértil, ainda que queimado.
Pois na geometria imperfeita da vida, até o que quebra encontra novo contorno no corpo da musa. O sol renasce sem pedir desculpas pela longa noite, e a voz, finalmente liberta o som que de dentro do peito se esvai, entoando a primeira nota do fogo de verão que ainda está por vir.
O Arremate
Nem toda despedida é um naufrágio aos frágeis ; às vezes é só o mar devolvendo à terra firme o marinheiro que aprendeu a navegar no escuro.
Se o amor desbota no varal dos dias comuns, a alma recolhe o tecido, dobra a saudade e veste a coragem de um novo alvorecer. Quem soube amar no tom menor, no arpejo doído da ausência, aprende a orquestrar o próprio destino em tom maior quando o sol finalmente decide despontar.
O marinheiro que passou pela tempestade não volta o mesmo pra praia, volta capitão de si. Que venha, então, esse fogo de verão: as velas já estão ajustadas, a escrita afiada e a garganta, enfim, liberta pra cantar o próximo capítulo.
“A cicatriz nada mais é do que a escrita do tempo garantindo que a ferida já virou verso.”
Ficou forte, musical e denso na medida certa! Se precisar do tempero final pra alguma estrofe ou refrão, a cozinha das letras tá sempre aberta!
@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️
Escritor, Poeta, Contista e Cronista
Athelier das Letras - Selo 444
opoetalk520.substack.com
pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com