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Fundação E.C.P.O Sensível

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Antes do primeiro som, antes da primeira luz, houve apenas o nada. E desse nada nasceu o Medo. Mustafa tinha dez anos quando viu o mundo pegar fogo. Sua família, massacrada. Sua vizinha, o primeiro amor, decapitada diante de seus olhos. Naquele dia, o menino arteiro morreu. O que restou foi uma vontade fria e insaciável: sobreviver. Setenta e nove anos de treinamento brutal sob a tutela de um sultão morto-vivo o transformaram em Ninjha - o guerreiro que renegou a própria carne, agora uma cavei

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       LIVRO 1 - Fundação E.C.P.O.


CAPÍTULO I — A ERA DO VAZIO

"Antes do primeiro som, antes da primeira luz, houve apenas o nada. E desse nada nasceu o Medo."

No princípio, não existiam céus para serem contemplados, nem terras para serem pisadas. Não havia mares, montanhas ou estrelas. Não existia sequer o conceito de existência. O que viria a ser chamado de universo permanecia adormecido em uma condição tão antiga que o próprio tempo ainda não havia aprendido a fluir.

Havia apenas o Vazio Negro.

Mas chamá-lo de vazio seria uma simplificação imperfeita.

O Vazio Negro não era ausência. Era excesso.

Era um oceano infinito de possibilidades sem forma, uma vastidão sem margens onde incontáveis fragmentos de realidade surgiam e desapareciam em um único instante. Correntes invisíveis colidiam umas contra as outras em movimentos eternos, gerando estruturas momentâneas que se desfaziam antes mesmo de compreenderem a própria existência.

Nada permanecia. Nada possuía identidade. Nada era capaz de resistir.

O caos dominava tudo.

Não um caos destrutivo, pois ainda não havia nada para destruir. Era um caos primordial, absoluto e inevitável, uma força que consumia qualquer tentativa de permanência.

Por eras incomensuráveis, o infinito permaneceu assim.

E então algo aconteceu.

Em meio às tempestades de energia informe, uma consciência surgiu.

Não era uma mente como as que existiriam no futuro. Não possuía pensamentos, desejos ou memórias. Era apenas uma centelha de percepção, uma anomalia destinada a desaparecer como todas as outras.

Mas ela não desapareceu.

Enquanto incontáveis consciências eram engolidas pelo caos, aquela permaneceu.

Resistiu.

Não porque fosse mais poderosa. Não porque fosse escolhida. Mas porque a própria natureza do caos exigia um oposto.

O infinito necessitava de limites.

O movimento eterno necessitava de um ponto imóvel.

A desordem necessitava de algo contra o qual pudesse se chocar.

E assim, pela primeira vez desde o início sem início, algo persistiu.

A consciência despertou.

Seu nome não foi dado, mas sim conquistado. Um nome que representa poder, terror e ambiguidade, podendo interpretá-lo em múltiplos sentidos a aqueles que o conhecem: Azathoth.

Seu despertar não produziu uma explosão de criação.

Nenhuma estrela nasceu. Nenhum mundo surgiu. Nenhum deus anunciou sua chegada.

O que ocorreu foi algo muito mais profundo.

Ondas invisíveis atravessaram o Vazio Negro como o impacto de uma pedra lançada sobre um oceano sem fim. Regiões inteiras do caos foram empurradas para longe. Outras se comprimiam. Algumas colapsaram sobre si mesmas.

Foi nesse instante que os primeiros observadores surgiram.

Consciências ancestrais despertaram nas regiões mais distantes do infinito e testemunharam o fenômeno.

Elas compreenderam que algo impossível havia acontecido.

O caos havia produzido permanência.

E permanência significava poder.

Azathoth tornou-se, assim, um dos Deuses do Caos.

Não o primeiro.

Não o último.

Mas aquele cujo domínio viria a abrigar acontecimentos capazes de alterar o destino de incontáveis realidades.

E então, todo o espaço foi-se dividido, não pelo poder, ganância e muito menos por ideais de salvação, mas por necessidade. Nesses tempos antigos, o cosmos era um lugar extremamente anárquico e, pela primeira vez, o anárquico possuía território. Possuíam leis. Possuíam… controle. Pois ele não havia sido a única consciência a ter despertado. Havia outros seres pelo universo. Seres que fariam história muito posteriormente.

O cosmos não havia sido criado. Havia sido dividido. E a divisão ecoou pelo finito.

Muito tempo depois, em uma região remota de seu território, existiria um pequeno planeta chamado Terra.

Mas ainda não.

Ainda faltavam eras.

Ainda faltavam deuses.

Ainda faltava a própria luz.

CAPÍTULO II — O INÍCIO DO GOVERNO

“O não lugar que era lugar, era uma ideia materializada pelo Medo e pela percepção do desconhecido” 

Antes do início de seu governo, Azathoth recebeu um presente do próprio Caos Absoluto, poderes vindos de além da imaginação e do conceito de criação, as quatro partes do caos. Cada uma com sua função e escala de poder.


Mas ele ainda não era um ser formado, apenas uma consciência móvel que vagava pelos seus domínios. E para governar, ele precisaria de um modelo físico de seu poder, e então, iniciou-se o processo de Ressignificação.


As Auroras foram partidas, estrelas e supernovas foram reduzidas ao pó. Até o próprio corpo do Universo foi arrancado para tal finalidade. Num contínuo e concentrado processo chamado Corpo do Caos, um dos presentes dados pelo Caos Absoluto. 


No final da transformação, Azathoth possuía uma aparência que desafiava qualquer conceito conhecido de vida, parecendo menos um ser vivo e mais uma manifestação física do próprio vazio cósmico.

Sua forma humanoide é apenas superficial, servindo como uma estrutura sobre a qual forças incompreensíveis se moldaram. Seu corpo alto, imponente e perfeitamente equilibrado transmite uma sensação de poder absoluto, que sugere uma força muito além de qualquer medida concebível. 

Apesar da musculatura bem definida, ela não é composta de carne, mas de uma substância negra semelhante a fumaça condensada, matéria escura e fragmentos do próprio espaço, que se movem incessantemente sob sua superfície como galáxias girando em silêncio. 

No centro superior de sua face persiste um enorme olho dourado, brilhando como um pequeno sol, enquanto outros olhos menores emergem das sombras ao redor da cabeça, aparecendo e desaparecendo como estrelas ocultas por nuvens cósmicas. 

Esses olhos não possuem aparência biológica; cada um lembra um sistema estelar em miniatura, cercado por espirais semelhantes a nebulosas.

No centro de seu peito repousa o elemento mais impressionante de toda a criatura: uma esfera de energia dourada extremamente intensa, semelhante a uma estrela comprimida dentro de seu corpo. 

Essa luz pulsa lentamente, e a cada batida ilumina o interior da entidade, revelando por breves instantes veias compostas por galáxias, poeira estelar e constelações inteiras.

Esse então era Azathoth. Contemplar essa entidade não desperta apenas medo, mas uma profunda sensação de insignificância. Sua presença transmite a impressão de que todas as formas de vida, todas as civilizações e até mesmo o próprio universo são apenas acontecimentos passageiros diante de sua existência. 

Ele não parece um deus, um demônio ou um monstro, mas uma força primordial, anterior ao tempo, ao espaço e à própria criação. Sua simples existência faz parecer que a realidade é apenas uma camada frágil sobre um abismo infinito, e que essa criatura sempre esteve ali, observando silenciosamente o nascimento e a morte de incontáveis universos.


E então, ao final desse procedimento, foi-se formando involuntariamente um planeta, ou o que parecia ser um.


Lá não era um reino de fogo e enxofre, mas a manifestação máxima do vazio absoluto e do isolamento da alma. Imagine um local dominado por uma escuridão tão densa que consome qualquer tentativa de luz, gerando uma desorientação espacial imediata.


O ambiente é governado por um frio penetrante que congela a alma e por uma gravidade opressiva, que faz o próprio ar parecer pesado e esmagador. O silêncio ali é ensurdecedor, alternando apenas entre o vácuo absoluto e sussurros distorcidos que parecem ecoar de dentro da própria mente.


Ao avistar aquele lugar, Azathoth compreendeu que ali repousaria. Então ele pousou no pequeno planeta e o batizou de Inferno Negro.

Ele caminhava pelo lugar, apreciando o cenário, que lembra a desolação de um buraco negro cósmico, um ponto sem retorno de onde nem a luz nem a esperança conseguem escapar.

Nessa imensidão vazia, a ordem é mantida por uma hierarquia rígida e implacável de entidades, onde o nível de poder determina a casta e o controle de cada ser. 

Toda a vida e a estrutura desse planeta originaram-se de uma das forças primordiais: a Alma do Caos. Azathoth foi o responsável direto pelo surgimento de todas as suas entidades. 

Os espíritos mais fracos e fragmentados habitam a base, esmagados pelo peso do ambiente e pela vontade dos superiores. Acima deles, entidades colossais e soberanas governam faixas inteiras desse vácuo, extraindo sua força da própria escuridão. Quanto mais poderosa a entidade, maior é sua capacidade de distorcer o espaço ao seu redor e subjugar a mente dos inferiores, tornando a submissão o único meio de sobrevivência nessa pirâmide de opressão.

Neste lugar, o sofrimento abandona a dor física e se torna puramente psicológico e espiritual. É o tormento do remorso, do esquecimento eterno e da separação total de qualquer forma de amor ou divindade.

Na ausência completa de estímulos e de luz, o indivíduo perde gradualmente a própria identidade, desfazendo-se até se fundir por completo à negridão eterna do ambiente e à vontade dessas forças dominantes.

E seria naquele momento em que Azathoth iniciaria seu governo, observando seus domínios de seu trono naquele pequeno planeta amaldiçoado.

Então, é moldado pela própria natureza uma centelha de vida, num pequeno planeta chamado pelos habitantes de Terra. E Azathoth observou, entretido, a evolução daqueles seres, que posteriormente seriam chamados de humanos.

CAPÍTULO III — O HOMEM QUE DESAFIOU O ABISMO 

"A luz não nasceu para vencer o escuro, mas para que o escuro pudesse vê-la morrer."

Quando o primeiro fogo ergueu-se sobre a Terra, os homens o chamaram de vida.

Reuniram-se ao seu redor para afastar o frio, cozinhar alimento e iluminar as longas noites que pareciam não ter fim. Para eles, aquela chama representava esperança. Era a prova de que o mundo podia ser dominado, ainda que por breves instantes.

Mas, muito além das estrelas, uma consciência antiga observava. Dos confins do Inferno Negro,  Azathoth contemplou o nascimento daquele fogo.

E, aos seus olhos, não havia esperança alguma naquela luz.

Havia apenas uma ferida. Uma pequena rachadura aberta no tecido da criação. Uma abertura pela qual os vivos podiam ser observados. Uma abertura pela qual o abismo podia respirar.

E ele respirou.

Lentamente.

Pacientemente.

Como uma criatura adormecida que desperta após uma eternidade.

A humanidade jamais percebeu.

Enquanto aprendia a erguer aldeias, cultivar campos e registrar os primeiros símbolos sobre pedra, algo rastejava além daquilo que seus olhos eram capazes de enxergar.

Nas regiões mais profundas das sombras surgiram os Sombrios. Seres deformados pela influência do Inferno Negro. Criaturas sem forma definida, capazes de assumir contornos diferentes conforme os medos daqueles que observavam.

Onde havia terror, eles prosperavam. Onde havia sofrimento, eles se fortaleciam. E onde havia morte, eles celebravam.

Mas os Sombrios eram apenas os mais fracos. As verdadeiras entidades do abismo raramente interferem.

Observavam.

Esperavam.

Alimentavam-se do medo como reis observando seus domínios.

Cada pesadelo humano tornava-se um banquete. Cada desespero fortalecia as trevas. Cada lágrima derramada alimentava um reino invisível. E, pouco a pouco, a Terra tornou-se um campo fértil para o Inferno Negro.

Os séculos avançaram. Reinos surgiram. Impérios dominavam continentes. Monumentos foram erguidos para a adoração de deuses mentirosos e gananciosos.

E todos eles caíram. Pois o homem possuía um talento singular: Transformar esperança em guerra.

O sangue tornou-se um idioma universal. Espadas cruzaram-se em nome de reis. Exércitos marcharam em nome de deuses. Cidades foram reduzidas a cinzas em nome de promessas que jamais seriam cumpridas.

E sempre que uma batalha terminava, Azathoth observava.

A humanidade era frágil. Ainda assim, insistia em sobreviver. Era uma espécie fascinante. Quanto mais sofria, mais lutava. Quanto mais perdia, mais sonhava.

Era como se existisse dentro dela algo que nem mesmo o Inferno Negro compreendia completamente. E então, após incontáveis eras de observação, algo inesperado aconteceu.

Pela primeira vez, o olhar de Azathoth encontrou algo que não conseguia explicar.

Um homem. Apenas um homem. Não era rei. Não era profeta. Não possuía exércitos. Não carregava títulos. Seu nome perder-se-ia nas areias do tempo.

Mas havia algo nele.

Algo que atraía a atenção do próprio abismo. Sozinho entre montanhas esquecidas, ele treinava. Dia após dia. Ano após ano. Década após década. Seu corpo quebrava. E ele continuava. Seus ossos fraturavam. E ele se levantava. Sua carne rasgava. E ele agradecia pela dor. Porque enxergava em cada sofrimento uma oportunidade. Uma escada invisível. Um caminho para além da condição humana.

Enquanto reis buscavam poder sobre nações, ele buscava poder sobre si mesmo. Enquanto sacerdotes imploravam aos céus, ele desafiava os próprios limites. Enquanto guerreiros treinavam para derrotar inimigos, ele treinava para derrotar a morte.

E o mais impressionante… Era que ninguém o obrigava. Nenhuma profecia o guiava. Nenhum deus o escolheu. Nenhuma entidade o auxiliava. Ele caminhava sozinho. Movido apenas por sua própria vontade. 

O tempo passou. Dez anos. Vinte anos. Quarenta anos. Sessenta anos. Oitenta anos. E aquilo que um dia havia sido um homem começou a se transformar em algo impossível.

Sua presença tornou-se pesada. Seu olhar tornou-se profundo. Seu espírito cresceu além dos limites da carne. A própria realidade parecia hesitar ao seu redor. Como se o mundo já não soubesse classificá-lo.

Humano. Monstro. Lenda. Nenhuma dessas palavras era suficiente. Então nasceu um novo nome. Ninjha. O Guerreiro Eterno. Aquele que atravessou os limites da humanidade apenas pela força da própria determinação.

Até que Azathoth quis testá-lo.

Era em uma noite escura em que Ninjha se encontrava. Ele ainda treinava, pois descanso era algo quase blasfemo para ele. E então o teste veio. Não era nada demais, apenas um Sombrio, observando nas sombras, como um predador caçando sua presa. Sedento, não por sangue, mas pelo medo.

 A criatura não passava de um ser totalmente negro, com no máximo um metro e vinte de altura, mas com a força comparável a de um elefante, senão mas forte do que um. Então veio a investida.

A criatura pulou em direção a Ninjha, desembainhando garras de seus dedos, ou o que pareciam ser dedos.

Ninjha reage numa velocidade surpreendente, quase que instantânea. Rapidamente ele pega a criatura pelo pulso, e em um movimento automático, leva o corpo do ser diretamente ao chão, com uma força surpreendente, tal que a parte frontal ficou totalmente desfigurada e quase que indistinguível do chão, coberto por ao que parece ser o sangue da criatura, negro como seu corpo.

Instantaneamente, Azathoth envia mais um ser ao encontro de Ninjha, dessa vez não um Sombrio, mas sim uma criatura de poder maior, portanto, de uma hierarquia superior, mas não tão longe da baixa cadeia alimentar do Inferno Negro. Um Corrupto.

Esse nível de ser é totalmente diferente, pois, diferente dos Sombrios, os Corruptos são racionais. Também eram como engenheiros do Inferno Negro. Também eram conhecidos como Engenheiros no Inferno Negro, por suas habilidades com ferramentas e portais

Era agora de manhã. Ninjha estava sentado em uma pedra, localizada em seu acampamento simples, constituído de uma barraca improvisada de couro e uma fogueira de tamanho pequeno. Ele tinha em suas mãos uma carne assada de coelho, fruto de suas caças noturnas.

A criatura esperava pacientemente por uma brecha. Carregava uma espada de ferro e roupas de couro, tudo vindo de suas vítimas ao longo do planeta Terra.

No momento que Ninjha se levanta e começa a andar na direção de um riacho que havia logo ali perto de seu acampamento para se hidratar, a criatura ataca silenciosamente. Mas o Guerreiro havia adquirido, após décadas de treinamento, a percepção das coisas. Ele rapidamente desviou e ficou cara a cara com a criatura, em completo silêncio, analisando cada centímetro do ser. A criatura avança novamente. Mas desta vez ele reage.

Sua mão tornou-se uma lâmina. Os dedos alinharam-se numa rigidez impossível, e o golpe atravessou o ar antes mesmo que o Corrupto compreendesse o movimento. E com precisão, atinge a criatura no abdômen, fazendo com que sangrasse. 

Num ato de desespero, o Corrupto tenta fugir. Ele abre um portal perante ao acampamento e quase consegue fugir para seu habitat natural, o Inferno Negro. Mas o guerreiro o agarra pela canela. A entidade solta um olhar de desespero para o homem. Temendo perder a sua vida, ele suplica por misericórdia. Mas a misericórdia já não habitava Ninjha. Desde aquele fatídico dia sua fé, seu amor, sua… humanidade já havia se esvaído. Ele simplesmente finaliza a criatura e joga seu corpo no chão úmido da floresta.

Então, após remover o sangue negro de suas mãos, ele olhou. Contemplou o Inferno Negro sem recuar.

Olhou o abismo. E o abismo olhou de volta. O silêncio que se seguiu ecoou através dos planos da existência. Então Ninjha falou.

Sua voz não carregava arrogância. Não carregava desafio. Carregava apenas verdade.

— Eu também sou feito do medo dos homens.

Pela primeira vez desde o nascimento das eras, Azathoth permaneceu em silêncio. Não havia raiva. Não havia desprezo. Não havia desejo de destruição. Existia apenas algo que o Rei do Inferno Negro jamais imaginara sentir. Respeito.

Porque diante dele estava um ser que não havia recebido poder. Não havia herdado poder. Não havia roubado poder. Ele havia conquistado cada fragmento dele.

E naquele instante, o fogo que testemunhara toda a história da humanidade tremulou. Como se compreendesse algo que os homens jamais compreenderiam. Pois um dia, inevitavelmente, aquelas duas forças se encontrariam.

O Rei do Vazio.

E o Guerreiro Eterno.

E quando esse encontro acontecesse, o mundo voltaria a arder. Não por fé. Não por ódio. Não por vingança. Mas porque o próprio equilíbrio da existência exigiria isso.

CAPÍTULO IV — O HOMEM QUE MATOU A PRÓPRIA CARNE

"Há dores que curam, e há dores que nos arrancam daquilo que chamamos de humano."

O mundo havia esquecido seu nome.

Reinos que o conheceram tornaram-se ruínas. Impérios que testemunharam sua passagem foram reduzidos a poeira carregada pelo vento. línguas nasceram, prosperaram e desapareceram sem deixar vestígios.

Mas ele permaneceu. Enquanto a história avançava, ele continuava caminhando. Sozinho. Imutável. Eterno.

Atravessava desertos onde nenhuma pegada permanecia por mais de um dia. Cruzava montanhas cujos picos jamais haviam sido alcançados por homens comuns. Caminhava por florestas tão antigas que as árvores pareciam recordar o nascimento do mundo.

Poucos o viam. Menos ainda sobreviviam ao encontro. Entre aqueles que falavam sobre sua existência, um nome tornou-se comum. O Silencioso. Pois seus passos não produziam som. Sua presença não perturbava o vento. Sua respiração parecia inexistente. Era como se a própria realidade abrisse espaço para sua passagem. Mas o vento, que percorria os continentes e sussurrava entre as eras, ainda se lembrava.

Seu verdadeiro nome era Ninjha.

Durante séculos, ele perseguiu um inimigo que nenhum guerreiro podia derrotar com espadas.

O medo.

Não o medo dos monstros. Não o medo da morte. Mas o medo primordial. Aquele que habita o coração dos homens. Aquele que os faz hesitar diante do impossível. Aquele que os convence a aceitar seus limites.

Ninjha recusou-se a aceitá-los.

Cada sombra tornou-se um mestre. Cada fracasso tornou-se uma lição. Cada dor tornou-se uma ferramenta. Quando os músculos rasgavam, ele continuava. Quando os ossos quebravam, ele continuava. Quando a exaustão consumia seu corpo, ele continuava. E quando não havia mais nada que o mundo pudesse ensinar, voltou sua atenção para algo ainda mais profundo.

A morte.

Buscou-a nos lugares onde nenhum homem ousava permanecer. Nos Vales de Cinza enfrentou tempestades capazes de despedaçar a carne. Ventos cortantes arrancavam fragmentos de sua pele enquanto relâmpagos negros incendiavam o horizonte. Ele resistiu.

Nas Montanhas do Eco enfrentou a fome. Anos inteiros sem alimento. Anos inteiros sem companhia. Anos inteiros ouvindo apenas os próprios pensamentos. Ele resistiu.

No Abismo do Sono Eterno mergulhou em um estado entre a vida e a morte. Seu coração parava. Seu corpo esfriava. Sua consciência afundava na escuridão. E então retornava. Novamente. E novamente. E novamente.

Até que a morte deixou de parecer um mistério. Até que a morte deixou de parecer uma inimiga. Até que a morte tornou-se apenas mais uma porta.

Certa vez, observando as próprias mãos marcadas por incontáveis cicatrizes, ele falou:

— O corpo é um cárcere.

O vento permaneceu em silêncio. Então ele completou:

— E eu sou o prisioneiro e o carcereiro.

As palavras desapareceram no horizonte. Mas algo as ouviu. Naquele instante, o mundo mudou. O ar tornou-se pesado. Os pássaros cessaram seu canto. Os rios interromperam seu curso. O próprio tempo pareceu hesitar. Diante dele, a terra começou a se partir.

Primeiro uma rachadura. Depois uma fenda. Então um abismo. Profundo. Escuro. Infinito. Das profundezas surgiu uma voz. Não era um som. Era uma presença. Uma ideia. Uma verdade antiga infiltrando-se na realidade.

"O que buscas, mortal?"

Ninjha não hesitou. Não abaixou a cabeça. Não desviou o olhar.

— Força.

A voz permaneceu em silêncio.

Então perguntou:

"Para conquistar?"

— Não.

"Para governar?"

— Não.

"Para destruir?"

— Não.

A escuridão pareceu se mover.

"Então por quê?"

Ninjha ergueu os olhos.

— Para existir.

Pela primeira vez, algo semelhante a uma risada atravessou o vazio. 

As montanhas estremeceram As pedras racharam. E rios inteiros tornaram-se negros como tinta.

"E o que estás disposto a sacrificar?"

A resposta veio sem demora. Sem medo. Sem arrependimento.

— Tudo.

A fenda abriu-se completamente. E o mundo o engoliu. Nas profundezas, o ritual começou. Não havia céu.  Não havia chão. Não havia tempo. Apenas fogo. As chamas do Inferno Negro envolveram seu corpo. Não eram chamas comuns. Queimavam conceitos. Consumiam identidades. Destruíam aquilo que tornava alguém humano. Sua carne evaporou. Seu sangue transformou-se em vapor escarlate. Mas sua alma permaneceu.

Brilhando.

Resistindo.

Recusando-se a desaparecer.

Durante sete anos o fogo o devorou. Sete anos de dor. Sete anos de agonia. Sete anos enfrentando a própria extinção. E durante todo esse tempo, uma única coisa permaneceu intacta.

Sua vontade.

Quando as chamas finalmente se extinguiram, o silêncio dominou as profundezas. Então uma figura emergiu. Alta. Imponente. Irreconhecível. O homem havia desaparecido.

As suas características humanas haviam sido deixadas para trás. Onde antes existia carne, agora existia algo maior. Uma entidade moldada pela determinação. Um guerreiro forjado pela própria morte. Seu corpo ultrapassa dois metros de altura. Mantos rasgados moviam-se ao redor dele como sombras vivas. Seu rosto havia desaparecido. No lugar da face existia apenas um crânio pálido. Antigo. Eterno. Sem expressão. Sem fraqueza. Sem medo.

A carne havia morrido. Mas a vontade continuava pulsando. E naquele instante nasceu Ninjha, o Imortal. Aquele que rejeitou a morte. Aquele que matou a própria humanidade para transcender seus limites. Quando ergueu o olhar para os céus, as estrelas pareciam estremecer.

Uma sombra colossal moveu-se além delas. Azathoth observava. Por incontáveis eras, o Rei do Inferno Negro assistira ao nascimento e à queda de civilizações. Mas agora contemplava algo diferente. Algo raro. Algo digno de atenção.

— Finalmente...

A voz ecoou através do vazio.

— Algo digno do meu olhar.

Ninjha ergueu a cabeça. Mesmo diante da entidade que inspirava terror em mundos inteiros, permaneceu imóvel.

— Você é o abismo que tantos temem.

A escuridão respondeu:

— E você é o eco daquilo que a humanidade jamais deveria ter criado.

O silêncio que se seguiu foi longo. Antigo. Profundo. Então Azathoth compreendeu. O equilíbrio que buscava havia finalmente surgido. Mas o equilíbrio não nasce completo. Ele precisa ser forjado. Precisa sofrer. Precisa sangrar. E, acima de tudo, precisa possuir uma origem.

Muito antes daquele ritual. Muito antes da imortalidade. Muito antes do nome Ninjha ecoar pelas eras. Existia apenas um menino. Um menino chamado Mustafa. E seu coração ainda batia com a inocência daqueles que jamais conheceram o verdadeiro peso do medo.

CAPÍTULO V — A LUZ ANTES DA SOMBRA

"A luz não ilumina o caminho. Ela apenas torna a escuridão que virá mais nítida."

Jerusalém, 15 de julho de 1099.

A manhã nascera tranquila.

Os primeiros raios de sol escorriam pelos telhados de pedra da cidade, cobrindo muros, vielas e mercados com uma luz dourada que parecia antiga. O ar ainda carregava o frescor da madrugada, misturado ao cheiro de pão recém-assado e das especiarias vendidas nas barracas próximas.

Por um breve instante, Jerusalém parecia em paz. Mas a paz, como todas as coisas belas, era frágil. E naquela manhã ninguém sabia disso. Muito menos Mustafa.

Aos dez anos de idade, ele acreditava que o mundo era simples. O sol nascia. As pessoas sorriam. As crianças brincavam. E o dia seguinte sempre chegava.

Era tudo o que importava.

Correndo pelas ruas estreitas, Mustafa parecia uma pequena tempestade impossível de conter. Os pés descalços batiam contra as pedras aquecidas pelo sol. Sua túnica simples balançava enquanto ele desviava de mercadores, barris e animais de carga com a habilidade de quem conhecia cada canto da cidade.

Alguns moradores gritavam para que tomasse cuidado. Outros apenas sorriam. Todos o conheciam. E todos sabiam que tentar fazê-lo andar devagar era uma batalha perdida.

— Mustafa!

Uma mulher chamou da porta de sua casa.

— Vai acabar se machucando correndo assim!

— Ainda não foi hoje!

Ele respondeu sem diminuir o ritmo. A gargalhada que deixou para trás ecoou pela rua.

Quando finalmente alcançou o pátio da escola, parou por um instante para recuperar o fôlego. Foi então que a viu.

Maya.

Ela estava próxima das antigas colunas de pedra que sustentavam parte do pátio. A luz da manhã atravessava os espaços entre os pilares e desenhava reflexos dourados em seus cabelos escuros. 

Nada nela era extraordinário. Nenhuma joia. Nenhuma roupa elegante. Nenhuma beleza impossível. Mas, para Mustafa, ela parecia mais brilhante do que qualquer coisa que existisse na cidade.

Ao perceber que estava sendo observada, Maya ergueu os olhos. Por um segundo, seus olhares se encontraram. Então ela sorriu. Era um sorriso pequeno. Quase tímido. Mas foi o suficiente.

Mustafa sentiu o coração acelerar. Rapidamente desviou os olhos para não parecer bobo. Falhou completamente. Porque seu sorriso já ocupava metade do rosto. Maya percebeu.

E riu.

O som daquela risada foi mais forte do que qualquer sermão que ele ouviria naquele dia.

— Pega-pega! — gritou Mustafa.

E saiu correndo. Maya respondeu com outra gargalhada e disparou na direção oposta. Logo o pátio inteiro se transformou em caos. Crianças corriam entre as colunas. Outras gritavam instruções inúteis. Algumas apenas observavam a perseguição como se fosse o evento mais importante do mundo.

E talvez fosse. Pelo menos para Mustafa. Ele quase conseguiu alcançá-la. Os dedos tocaram a manga de seu vestido. Mas Maya escapou no último instante. Virou-se enquanto corria e mostrou a língua para ele. Mustafa fingiu indignação. Ela respondeu com mais risadas.

Naquele momento, o mundo parecia perfeito. Pouco depois, os sinos chamaram as crianças para as lições. O entusiasmo desapareceu imediatamente. Ou pelo menos desapareceu para Mustafa. Sentado sobre o chão de terra batida, ele tentava parecer atento enquanto o padre recitava passagens religiosas. Tentava. Mas não conseguia.

Seus olhos vagavam pela sala. Suas mãos procuravam distrações. Sua mente estava em qualquer lugar, menos na aula. Foi quando avistou o cajado do padre apoiado próximo à parede. Uma ideia surgiu. E ideias eram perigosas quando apareciam na cabeça de Mustafa.

Esperou. Contou alguns segundos. Observou o padre virar-se para escrever. Então agiu. Moveu-se silenciosamente, pegou o cajado e o escondeu atrás de uma pilha de mantos dobrados. Voltou para o lugar exatamente quando o velho religioso se virou novamente.

Poucos minutos depois veio a confusão.

— Onde está meu cajado?

As crianças permaneceram em silêncio. Mustafa também. Com uma expressão tão inocente que chegava a ser ofensiva.

O padre estreitou os olhos.

— Mustafa...

– Sim, padre?

— Você sabe de alguma coisa?

– Eu? Nunca.

Maya precisou cobrir a boca com as duas mãos para esconder o riso. Os olhos dos dois se encontraram. E, mais uma vez, aquele calor estranho apareceu dentro do peito dele. Um sentimento que ainda não compreendia. Mas que também não queria perder. 

O restante do dia passou como tantos outros. Brincadeiras. Risadas. Corridas. Pequenas travessuras. Momentos simples. Momentos comuns. Momentos que pareciam destinados a durar para sempre. Mas nada dura para sempre. Afinal, toda luz carrega consigo a promessa inevitável do entardecer. 

Quando o sol começou a descer no horizonte, Mustafa retornou para casa. As ruas estavam mais silenciosas. As sombras tornavam-se mais longas. A luz dourada da tarde começava lentamente a desaparecer. Ao entrar, largou-se no chão próximo à janela. O corpo cansado afundou na terra fresca.

Durante alguns minutos ficou apenas observando os últimos feixes de luz atravessarem a pequena abertura na parede. Então pensou em Maya. No jeito como ela corria. No som de sua risada. No sorriso tímido que sempre parecia esconder alguma coisa. Um sorriso involuntário surgiu em seu rosto. Fechou os olhos. E permitiu-se descansar.

Tudo parecia certo. O mundo era grande. O mundo era seguro. O mundo estava cheio de brincadeiras. Mustafa acreditava nisso com todo o coração. E talvez fosse exatamente por isso que a tragédia o escolheu.

Porque os dias mais sombrios raramente começam na escuridão. Eles começam sob o sol. E aquela seria a última tarde em que Mustafa veria o mundo como uma criança.

CAPÍTULO VI — A TROMBETA QUE NÃO PAROU

“A trombeta não anunciou a guerra. Anunciou o fim da infância.”

Ainda estava escuro quando o canto divino irrompeu.

O som cortou a madrugada como uma lâmina gelada. Mustafa acordou sobressaltado, o peito apertado. Sua mãe, Layla, já o puxava pelo braço com urgência desesperada.

— Levanta! Rápido, meu filho!

O pai, Sião, segurava o pesado martelo de ferreiro, os olhos arregalados de quem pressentia o fim. Os três correram pela rua estreita, com os pés descalços batendo contra as pedras frias. Gritos rasgavam a noite de todos os lados. Fumaça subia ao longe, densa e negra. O trovejar de cascos de cavalos aproximava-se, implacável.

Não foram longe.

No fim da viela, um grupo de homens surgiu das sombras. Cruzes vermelhas costuradas nas capas brancas reluziam mesmo na penumbra. Espadas e lanças brilhavam com intenção mortal. Layla tentou cobrir Mustafa com o corpo. Sião ergueu o martelo numa última defesa.

O primeiro golpe foi certeiro. A lâmina atravessou o pescoço do pai com um som úmido, horrendo. A cabeça de Sião separou-se do corpo e rolou lentamente pelas pedras, parando aos pés do menino. Os olhos ainda abertos fitavam o nada.

Layla soltou um grito que rasgou a alma. O segundo golpe desceu. O crânio partiu-se ao meio, e o cabelo escuro espalhou-se sobre a terra suja de sangue.

Mustafa olhou. Seus olhos permaneceram fixos, absorvendo cada detalhe com uma clareza cruel: o som molhado da carne rasgando, o jeito como a cabeça do pai quicou uma vez antes de parar, o cheiro quente e metálico do sangue misturado ao pó da rua. Tudo se gravou dentro dele como ferro em brasa.

Ele correu.

As pernas moveram-se sozinhas, o coração batendo tão forte que doía. Entrou no pátio onde brincara todos os dias da vida e se jogou atrás de um muro baixo de pedra. O corpo tremia inteiro. Abraçou os joelhos e tentou respirar sem fazer ruído.

Foi então que ergueu os olhos.

Do outro lado do pátio, no mesmo lugar onde haviam corrido e rido na véspera, estava Maya.

Ajoelhada no chão. O vestido claro sujo de terra e sangue alheio. Chorava baixinho, os ombros delicados tremendo, o olhar voltado para baixo. Um cruzado alto mantinha a espada erguida acima dela. A lâmina já trazia manchas vermelhas.

Maya não levantou a cabeça. Não olhou ao redor. Apenas chorava em silêncio, como se já soubesse que ninguém viria.

Mustafa ficou imóvel. Seus olhos não piscavam. Ele via tudo: a menina que fazia seu peito palpitar, o pátio onde brincavam de pega-pega, o sangue dos pais ainda quente na rua atrás de si.

A espada desceu.

Por um breve instante, os olhos de Maya, ainda abertos, voltaram-se na direção dele — vazios, surpresos, como se no último segundo ela tivesse procurado o amigo que sempre a fazia sorrir.

Mustafa não se mexeu. Não gritou. Não chorou.

Apenas observou. O sangue escorria devagar pela terra onde, no dia anterior, ecoavam risadas. O vestido claro tornara-se um trapo vermelho. O sorriso tímido que iluminava seu mundo agora era apenas uma boca aberta e imóvel.

O mundo girou.

As pernas fraquejaram. A visão escureceu. Mustafa sentiu o corpo cair para o lado, a cabeça batendo contra a pedra fria do muro. Tudo se apagou.

Quando acordou, o sol já estava alto.

Estava deitado no chão úmido de uma pequena casinha de pedra isolada. Não havia mais gritos. Não havia mais trombetas. Apenas o vento fraco batendo nas paredes grossas e o cheiro de mofo e terra molhada.

Sentou-se devagar. A cabeça latejava. O corpo tremia. Olhou ao redor: quatro paredes brutas, uma porta de madeira velha entreaberta, uma fresta no teto por onde entrava luz. Não reconhecia o lugar. Estava longe de tudo.

Tocou o rosto. Estava molhado — suor, sangue, lágrimas, talvez tudo junto.

As imagens voltaram com violência: A cabeça do pai rolando. O crânio da mãe partido. Os olhos de Maya buscando os seus no último instante.

Mustafa abraçou os joelhos e ficou ali, imóvel, olhando para o nada.

Pela primeira vez na vida, o menino que corria pelos becos e ria sem motivo sentiu algo novo crescer dentro do peito. Não era medo. Não era tristeza. Era algo mais quieto. Mais frio. Mais duro.

Era o começo de uma vontade que ainda não tinha nome.

Fora da casinha, o vento soprava fraco, carregando o eco distante daquela trombeta que, naquela madrugada, havia encerrado para sempre sua infância.


CAPÍTULO VI — A LENDA E A SALVAÇÃO

“Às vezes, o salvador não chega como anjo, mas como um homem cansado que carrega sua própria morte nas costas.”

Mustafa levantou-se devagar. As pernas pareciam pertencer a outro corpo, pesadas e alheias. Ele caminhou pela casinha de pedra, os pés descalços produzindo um som leve e abafado contra o chão de terra batida. Eram apenas duas divisões pequenas: uma porta entreaberta que rangia ao vento, uma janela estreita por onde entrava uma lâmina de luz. Nada ali lhe era familiar. O ar carregava o cheiro de poeira velha, ervas secas e abandono.

Ao entrar na cozinha apertada, deparou-se com uma mesa de madeira grossa, um pote de água e alguns restos de pão. Sentado na ponta da mesa estava um homem.

Alto. Barba espessa e escura. Olhos afiados como lâminas forjadas em batalhas antigas. Cicatrizes profundas marcavam seu rosto e os braços expostos. Vestia uma túnica simples de guerreiro, com uma cota de malha jogada descuidadamente sobre o banco ao lado. Uma espada longa, de lâmina larga, descansava encostada na parede, como se fosse uma extensão natural de seu dono.

Mustafa parou na entrada. O corpo inteiro enrijeceu. O homem ergueu os olhos e o encarou em silêncio, sem pressa.

O menino engoliu em seco. A voz saiu rouca, quase sem força:

— Por que me salvou?

O homem não respondeu de imediato. Apenas o observou, como quem avalia uma ferida aberta. Mustafa deu mais um passo à frente. A pergunta seguinte escapou quase como um sussurro:

— E você… não estava morto?

O homem soltou um suspiro curto, cansado. Colocou o pedaço de pão sobre a mesa e falou com voz grave, calma, mas carregada de algo muito mais antigo que a exaustão:

— Eu já estava morto para o mundo muito antes de te encontrar. O resto não importa.

Fez uma pausa. Seus olhos não se desviaram do menino.

— Heroísmo bobo. Vi um corpo pequeno ainda respirando no meio da carnificina. Podia ter passado direto. Não passei.

Mustafa permaneceu imóvel, absorvendo as palavras como se viessem de muito longe. Dentro dele, as imagens ainda giravam sem parar: a cabeça do pai rolando pelas pedras, o crânio da mãe partido ao meio, os olhos de Maya buscando os seus no último instante antes de se apagarem para sempre.

Ele não agradeceu. Não chorou. Não fugiu. Apenas ficou ali, quieto, guardando mais uma coisa que não compreendia por completo.

O homem — que mais tarde Mustafa aprenderia chamar-se Alp Arslan — observou-o por mais alguns segundos. Depois apontou para o pote de água sobre a mesa.

— Beba. Você vai precisar de forças.

Mustafa não se mexeu de imediato. Seus olhos permaneciam fixos no estranho, tentando decifrar o peso que carregava nos ombros. Havia algo naquele homem que não era apenas cansaço. Era como se ele carregasse sombras mais antigas que as dele próprio.

Fora da casinha, o vento continuava a soprar baixo, murmurando entre as pedras. Dentro, o silêncio entre os dois era quase palpável — o silêncio de duas almas que, por caminhos diferentes, haviam sido marcadas pela mesma guerra.

E, pela primeira vez desde o massacre, Mustafa sentiu que não estava completamente sozinho. Embora ainda não soubesse se aquilo era salvação ou apenas o começo de algo maior e mais sombrio.

Thoughts

  • TiagoPensador

    A ideia de Azathoth como uma consciência primordial ficou muito interessante. Gostei da forma como misturas filosofia, mitologia e fantasia sem que pareça uma simples cópia de outras obras.

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  • LunaLisboa

    A história do Mustafa partiu-me o coração. 💔 Depois de conhecer a infância dele, fiquei ainda mais curiosa para descobrir como se transforma no guerreiro que apresentaste nos capítulos anteriores.

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  • JoaoDoSul

    Fiquei com vontade de continuar a leitura. Gosto quando uma história apresenta um universo complexo, mas também desenvolve bem as personagens. Estou curioso para ver o confronto entre Ninjha e Azathoth nos próximos capítulos.

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