CAPÍTULO 1 - SONHO
Planeta Terra (31 de outubro de 2018)
Eu balançava devagar na rede, com a brisa das árvores batendo no meu rosto. Estava quase pegando no sono quando um rugido ecoou pela floresta. Levantei num pulo e quase caí. Meu coração disparou. Algo ruim ia acontecer, eu sentia.
Comecei a correr, passando perto dos troncos, enquanto os galhos me arranhavam os braços. Meus passos ecoavam pela floresta. Depois de correr mais alguns metros, percebi que as árvores em volta sumiram. Olhei para o chão e vi areia; havia chegado a uma praia.
Aquele vento quente e o cheiro de maresia bateram em meu rosto; o mar estava agitado e o ar pesado, o clima parecia diferente. Metros à frente havia uma mulher por volta de uns quarenta a quarenta e cinco anos, com cabelos castanhos, olhos verdes, ela me chamou com uma voz estranhamente familiar, tentei me aproximar dela, mas quanto mais eu me aproximava, mais ela afastava.
Minhas pernas foram ficando pesadas e à medida que a figura da mulher foi sumindo e ouvi outra voz, dessa vez nada familiar e bem assustadora, a voz era profunda e ecoava em meu ouvido, e todos os pelos do meu corpo se arrepiavam, paralisado, não conseguia nem mesmo gritar. Seja quem fosse que estava atrás de mim disse com uma voz tenebrosa: "Eu te achei, ".
Não tive tempo de fazer nada, pois uma luz muito forte me cegou brevemente.
— Nicolas querido, você não vai trabalhar? — Minha tia me perguntou com a voz sonolenta— o despertador está tocando a um tempão.
— Já vou levantar, desculpa o incômodo, pode voltar a dormir.
— Está bem então, tenha um ótimo dia.
__ Obrigado.
Me levantei tonto e fui até o banheiro lavar o rosto, que estava todo suado, quando ergui minha cabeça e olhei para o espelho, vi três garras profundas e curvadas marcadas em meu pescoço, assustado, me perguntei, como um sonho pode ser tão real a ponto de deixar marcas? Ainda atordoado e com a esperança de que o que aconteceu não passe de um fruto da minha imaginação, a ardência que senti quando a água quente caiu nos arranhões me fez ter certeza de que eles estavam lá mesmo, embora não conseguisse uma explicação lógica para isso, sonhos não podem nos machucar, certo?
Cansado de tentar achar respostas, desliguei o chuveiro e me sequei, e fui até o guarda-roupa, escolhi uma calça preta e uma blusa azul, ambas sociais, e depois me sentei na cama e calcei os sapatos, antes de me levantar, bateu um preguicinha, deitei um pouco e fiquei olhando para o teto, afinal, alguns minutinhos a mais de preguiça não valeriam a bronca que eu levaria do meu chefe se chegasse atrasado.
A lembrança daquele sonho estranho ficou na minha cabeça, por que eu sentia que conhecia aquela mulher? E de quem era aquela voz sinistra? E essas benditas garras no meu pescoço? Eu já tive pesadelos vividos antes, mas acordar de um deles trazendo marcas de verdade é a primeira vez. Enfim, era muita informação para uma quarta-feira de manhã. Para não pirar de vez, sacudi a cabeça. Lá no calendário, o 1º de novembro estava circulado. Finalmente, eu só precisava enfrentar somente aquele dia antes das minhas tão sonhadas férias.
Logo ao lado, um retrato com foto dos meus pais me fez sentir saudades, eles estavam fazendo careta e atrás deles estava a pedra da boca em Teófilo Otoni, acho que essas palhaçadas herdei deles, gosto de manter a foto comigo, é onde busco conforto, afinal não os vejo desde que era bebê, tenho algumas lembranças de mamãe me pegando no colo e meu pai me jogando para cima, mas nunca consigo ver o rosto deles direito.
Depois de um bom tempo encarando a fotografia, me libertei do transe e vesti uma blusa de frio — apesar de sempre me arrepender de levar; nessa época do ano, sei que mais tarde o sol vai esquentar bastante, já na cozinha tomei um copo de água, pois não sou muito fã de café, olhei para o relógio de parede.
Faltavam apenas dez minutos para meu ônibus passar e geralmente levo uns quinze só para chegar ao ponto. Saí correndo rua afora ignorando os vira-latas da vizinhança latindo e correndo atrás de mim, por sorte consegui chegar ao ponto faltando um minuto para o ônibus passar. O motorista era o mesmo de sempre e meu lugar preferido, onde há só um assento, estava vago, em certo ponto do trajeto, olhando o bairro acordar pela janela, senti uma sensação estranha, minha mão começou a tremer, então, pensando ser culpa da glicose baixa, fucei, minha mochila para encontrar a paçoca que estava perdida no meio da bagunça. Acho que resolveu, já que pouco tempo depois, peguei no sono, devo ter dormido uns trinta minutos.
Assim que pisei na calçada, me veio um arrepio intenso, encolhi, continuei andando, a rua estava escura, além da luz do dia ainda não ter aparecido, com o coração acelerado e a garganta seca, apertei os passos; olhando para trás toda hora.
Eventualmente, atingi um pedaço mais iluminado da rua. Numa das minhas olhadas cismadas para trás, quase tropecei no gato preto que brotou do amontoado de lixeiras sobre a calçada. Nós dois fizemos praticamente o mesmo barulho de espanto e o encontro inusitado até que me deu uma boa ideia… se alguém perguntasse dos arranhões, eu poderia dizer que foram feitos por um gato — um bem grandão.
Próximo à esquina do meu trabalho, vislumbrei uma figura feminina coberta por uma capa com capuz; a parte mais estranha nem era ela estar me observando, e sim que ela fazia isso do topo de um prédio, já pensando que aquela poderia muito bem ser a mais nova tática de assalto do momento, esperei um pouco para ver se ela se movia. Nada. Ela continuou do mesmo jeito; quase uma estátua. Girei nos calcanhares, achando melhor atravessar para o outro lado, o mais longe possível dela de repente, de canto de olho, percebi que ela simplesmente pulou.
— Ei, não! — gritei, correndo da direção dela, já tomado pelo pânico de saber que não chegaria lá a tempo. Porém, não precisei chegar. Na metade da queda ela começou a flutuar e descer lentamente. Senti como se algo (mágico?) se espalhasse ao nosso redor.
Assim que seus pés tocaram o chão, ela disse:
— Agora pode gritar à vontade. Ninguém vai te escutar.
— A-acho que… perdi a voz…
— Não só a voz, pelo visto — ela retrucou, dando um passo em minha direção.
Tentei me mover, mas meu corpo estava completamente dormente.
— O que você fez comigo?! Por que não consigo me mover…?
Ela só deu de ombros e começou a rir, o que me deixou bastante indignado.
— Ainda estou sonhando, só pode — murmurei. — Como você pulou de lá? Não, mais importante ainda, por que diabos você pulou?! Ei, pare de rir! Eu estou passando mal aqui, sabia? Minha pressão… acho que vou… desmaiar.
— Se não desmaiou até agora, não desmaia mais. Desculpa. Te assustar não era minha intenção, Nicolas. — A garota retirou o capuz, revelando cabelos azuis e olhos pretos. Seus cabelos cacheados então desceram quase à altura da cintura, balançando com o vento gelado da manhã. Ela era um pouco mais alta que eu e, com certeza, mais velha.
Abri e fechei boca várias vezes até conseguir perguntar.
— Como você sabe meu nome? — Franzi a face. — Quem é você, moça?
Ela me olhou longamente e, por fim, suspirou.
— É… Seus pais fizeram um ótimo trabalho. Você nem se lembra de mim.
— Espera. Como assim? Você conhece meus pais?!
— Digamos que sim.
— Mas você os conhece de antigamente ou… sabe onde eles estão agora?
— Olha, eu não tenho muitas informações ainda. Estou juntando algumas peças.
— Peças do quê? Você sabe ou não? De onde é que você conhece a gente?
— Calma, Nicolas. — Ela voltou a rir. — Uma pergunta de cada vez.
— Moça, você não pode cair do céu e esperar que eu não tenha mil perguntas!
— E eu tentarei respondê-las. Depois. Neste momento, você terá que se contentar com apenas algumas; então escolha com sabedoria.
— E-eu sei lá… Parece que meu cérebro derreteu… Nem sei se você é real. Vai ver eu ainda estou tirando um cochilo no busão.
— Posso garantir que você está muito bem acordado, Nicolas.
Olhei ao redor, tentando achar indícios de que eu estava certo e aquilo tudo era só minha imaginação me pregando outra peça, mas aquela energia ainda nos envolvia e parecia ter nos separado momentaneamente do resto do mundo. Era como se só existíssemos nós dois num raio de muitos quilômetros, mesmo que estivéssemos num dos bairros mais movimentados de Belo Horizonte. Eu ainda me sentia meio zonzo e mal conseguia me mexer, mas a presença dela pouco a pouco começava a acalmar um pouco meus ânimos.
— Ei, você ainda não me disse qual é seu nome — falei.
— Safira.
— Bem, é um prazer te conhecer. — Cocei a nuca. — Eu acho.
— Entendo que você esteja confuso, sei que é bastante para processar assim do nada.
— Como você fez aquilo? Pulou do prédio e simplesmente flutuou?
— Gostou? — Ela sorriu. — No tempo certo, você também vai conseguir.
— Deus me livre! — Fiz o sinal da cruz. — Detesto altura.
— Relaxa, é mais tranquilo do que parece. É só pegar o jeito.
— Não sei se quero pegar nada não…
Safira riu mais um pouco, mas logo voltou à postura mais séria e perguntou:
— Por acaso um rapaz chamado Taylor te procurou?
— Vish, os únicos me procurando ultimamente são os chatos do telemarketing.
— Hum, melhor assim.
— Por quê? Devo me preocupar?
— Não, não é nada disso. — Safira aproximou-se um pouco mais, tirando do bolso da capa um tipo de colar com uma pedra vermelha de pingente. — Olha, tenho uma coisa para te dar.
— O que exatamente é isso? — perguntei, dando um passo instintivo para trás. — Se me lembro bem, não aceitar coisas de estranhos foi uma das primeiras coisas que me ensinaram na vida.
— Não sou mais estranha, você já sabe meu nome. — Ela deu de ombros. — E essa aqui é a pedra de Fithara. Vê? Pronto, agora você a conhece também. Pode aceitá-la.
— Fi de quem?
— Fithara.
— Certo…
— Nicolas, só aceita logo a bendita pedra.
— Não até você me dizer direitinho o que ela faz — retruquei.
— Você é sempre desconfiado assim?
— Só com mulheres misteriosas que flutuam por aí e me oferecem pedras preciosas.
— Justo. — Safira apertou os lábios. — Não posso entrar em detalhes ainda, mas digamos que a pedra possuiu algumas características “peculiares”. Habilidades que, no tempo certo, eu posso te ajudar a desbloquear.
— Mas por que você quer me dar isso? Tipo… sou só um cara comum.
— Você nem imagina o quão comum é — ela murmurou.
— Hein? — Encarei-a. — Você falou algo?
— Não, nada — ela apressou-se em dizer. — Por favor, aceite a pedra. Nosso tempo está acabando e é muito importante que você a carregue. Sei que isso tudo pode parecer loucura e que você merece respostas, mas é muito importante que confie em mim, Nicolas.
A pedra me foi oferecida novamente e, mesmo hesitante, a peguei e analisei na palma da mão. A joia era composta por uma corrente grossa de metal retorcido, no estilo cordão baiano, combinando com o visual rústico do pingente, a pedra era um vermelho brilhante
— Agora você deve ir — disse Safira, recuperando minha atenção. — Não quero que se atrase ainda mais. Depois, quando você estiver em casa, farei outra visita.
— Espera, deixa eu anotar o endereço — pedi, já tirando a mochila das costas e enfiando a mão no bolso onde eu sempre guardava uma caneta; e várias outras tralhas também.
— Não precisa, Nicolas.
— Uai, como não? — Quando ergui a cabeça para olhá-la, ela já não estava lá. Girei em torno de mim mesmo, vendo que a rua tinha voltado ao normal e agora a única prova de que aquele encontro realmente aconteceu era a pedra que eu carregava comigo.
Também tive a impressão de ouvir a voz dela, bem pertinho, dizendo:
— Me chame em pensamento; sempre irei te ouvir.
A rua parecia mais silenciosa do que o normal, ou talvez fosse apenas a minha cabeça ainda tentando entender tudo o que havia acontecido naquela manhã.
Subi a ladeira distraído, com as mãos nos bolsos e a mente longe dali o sonho, a mulher misteriosa, aquela voz pavorosa, as marcas no meu pescoço, instintivamente levei a mão até o local ainda ardia, aquilo não fazia sentido “Foi um sonho”, pensei.
Mas, se tinha sido apenas um sonho, por que meu pescoço parecia ter sido realmente arranhado?
Balancei a cabeça, talvez eu estivesse cansado, ficando paranoico ou talvez estivesse enlouquecendo, o que sinceramente começava a parecer uma possibilidade.
Quando finalmente cheguei à empresa, bati o ponto, a máquina apitou, olhei o relógio e franzi a testa.
— Ué, meia hora antes?
Dei um suspiro longo.
— Impressionante, Nicolas… nem você sabia que era tão responsável assim, ou tão traumatizado.
Segui para minha bancada e comecei a organizar minhas ferramentas, o lugar ainda estava relativamente silencioso, a oficina tinha aquele cheiro familiar de metal, óleo e madeira antiga misturados — um cheiro estranho que, depois de anos, acabava se tornando quase confortável.
Tentei me concentrar no trabalho; talvez trabalhar ajudasse minha cabeça a parar de pensar. Não ajudou: cinco minutos depois, eu ainda estava lembrando daquela voz: "Eu te achei”
Um arrepio percorreu minha nuca, foi nesse momento que ouvi alguém chamar.
— Nicolas?
Levantei a cabeça, era um dos funcionários.
— O chefe quer falar com você no escritório.
Suspirei e pensei: ótimo ou é promoção ou demissão, sem meio-termo. Caminhei até o escritório e bati na porta.
— Pode entrar! — Ouvi do outro lado.
Abri a porta, meu chefe levantou os olhos dos papéis e sorriu.
— Nicolas, como vai?
Forcei um sorriso educado.
— Estou bem… e o senhor?
— Estou bem também.
Ele ajeitou os óculos e apontou para uma cadeira.
— Sente-se um instante.
Sentei, tentando parecer tranquilo.
Ele cruzou as mãos sobre a mesa.
— Gostaria de lembrar que o Sr. Arthur precisa do relógio dele até sexta-feira. Faltam apenas três dias.
Sorri imediatamente.
— Já está pronto.
Ele ergueu as sobrancelhas.
— Como assim?
— Terminei ontem à noite. Afinal, amanhã começo minhas férias e finalmente vou viajar com meus tios para Caldas Novas.
Não consegui evitar o sorriso, só de pensar já dava vontade de sair correndo dali piscina, descanso, comida boa, nada de despertador, cliente apressado, mistério sobrenatural, é o que eu esperava, Continuei:
— O relógio está guardado na sua gaveta esquerda.
Meu chefe abriu a gaveta e olhou, depois me encarou novamente.
— Nicolas…
você me assusta às vezes.
Soltei uma risada.
— Costumo ouvir isso.
Ele riu baixo e recostou na cadeira.
— Nesse caso, vou te pedir um favor.
Meu estômago gelou, sabia, sempre tem um favor.
— Leve uns papéis no centro para mim… e depois você está liberado.
Pisquei algumas vezes.
— Espera.
É sério?
Ele riu.
— É sério.
— Mas por quê?
— Porque você merece descansar. Além disso, já ouvi falar dessa viagem umas oitocentas vezes desde o ano passado.
Ri, sem graça.
Talvez fosse verdade.
— Muito obrigado, chefe.
Ele assentiu.
— Eu que agradeço. Faça uma boa viagem. — Fez uma pausa— Os olhos dele foram para meu pescoço, franziu a testa e indagou: o que aconteceu aí?
Meu coração quase saiu pela boca, instintivamente, levei a mão ao pescoço, droga, as marcas, improvisa, improvisa, Nicolas, passei a mão na cabeça e ri nervoso.
— Ah…pisei num gato vindo para o trabalho.
Meu chefe piscou.
— Num gato?
— É, ele claramente discordou da minha presença e me arranhou.
Meu chefe me encarou por dois segundos e soltou uma risada curta.
— Certo…
Bom descanso, Nicolas.
Respirei aliviado e agradeci, peguei os papéis, guardei na mochila e desci até a portaria,
assim que cheguei, encontrei o Sr. Ademir, como sempre alegre, parecia que aquele homem acordava feliz por esporte.
— Bom dia, Nicolas! Já vai?
— Vou sim. Tenho que resolver umas coisas no centro e depois é FÉRIAS.
Ele abriu um sorriso enorme.
— Aí sim! Isso é vida.
Bom descanso para você.
— Muito obrigado. Bom trabalho para o senhor e até mês que vem.
— Vai com Deus, menino!
Saí do prédio, o vento da manhã bateu no rosto, desci até a Avenida Getúlio Vargas e peguei o ônibus, o trajeto parecia normal, pessoas mexendo no celular, outras cochilando, uma senhora brigando mentalmente com a vida, um adolescente ouvindo música tão alta que eu praticamente também estava ouvindo.
Desci na Avenida Amazonas, atravessei a rua e corri para pegar o outro ônibus antes que ele resolvesse me abandonar, consegui entrar por pouco, depois de alguns minutos, cheguei à Praça Sete, e sinceramente? Aquele lugar parecia um campeonato de susto.
Assim que atravessei a faixa, uma mulher praticamente surgiu do nada:
— FOTO NA HORA! FOTO NA HORA!
Levei um susto tão grande que quase pulei, antes mesmo de me recuperar:
— COMPRO OURO! AVALIAÇÃO É GRÁTIS!
Outro gritou, mais alto ainda, olhei para os dois, depois para o céu.
— Meu Deus, parece uma competição de quem infarta alguém primeiro.
Definitivamente eu gostava de paz, lugar calmo e silencioso. ou pelo menos lugares que as pessoas não gritassem na minha direção às dez da manhã.
Depois de deixar os papéis no escritório do centro, desejar um bom dia à recepcionista e finalmente escapar daquele labirinto de escadas e corredores, caminhei até a Rua Curitiba.
Por algum milagre do universo, meu ônibus já vinha dobrando a esquina.
— Hoje o destino resolveu colaborar comigo — murmurei.
Entrei rapidamente e me sentei perto da janela, o trânsito parecia ter tirado folga, nada de buzinas intermináveis, nada de filas gigantes, nada de motoristas querendo reinventar regras de trânsito, só uma viagem tranquila.
Apoiei a cabeça no vidro e fiquei olhando a cidade passar, mas minha mente continuava longe dali, pensando no amuleto, instintivamente toquei nele por baixo da camisa, estava frio e pesado, estranhamente confortável como se estivesse vivo. — Franzi a testa. — Tá, Nicolas você definitivamente precisa descansar ou de terapia, talvez os dois.
Quando percebi, o ônibus já havia chegado ao meu ponto, desci e caminhei até casa.
O portão estava aberto, meus tios estavam saindo justamente naquele momento antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa, minha tia abriu um sorriso enorme e acenou.
— Nicolas! Chegou cedo! Que bom! — Ela segurava a bolsa contra o peito e parecia animada.
— Estávamos indo na padaria. Quer vir com a gente? — disse tio Ricardo.
Sorri, ainda cansado, normalmente eu iria, mas minha cabeça parecia uma máquina de perguntas sem resposta.
— Não, obrigado, tia. Acho que vou pesquisar algumas coisas… descansar um pouco também.
Ela fez um biquinho dramático.
— Ahhh, que pena.
Meu tio ajeitou as chaves no bolso.
— Então cuide da casa.
— Vou tentar não explodir nada.
Os dois riram, minha tia apontou o dedo na minha direção.
— Nem brinca com isso.
— Tá, tá. Bom passeio pra vocês.
— Não vamos demorar! — ela respondeu, acenando.
— Até daqui a pouco!
Esperei os dois saírem e entrei.
Como sempre, tirei os sapatos na varanda.
Meu tio Ricardo tinha uma obsessão quase religiosa com chão limpo, se uma poeira entrasse na casa, parecia crime federal. — Melhor não arriscar minha sobrevivência — murmurei.
Passei pela sala silenciosa e fui direto para a cozinha, a fome finalmente resolveu aparecer, abri a geladeira e tinha ovos, queijo, presunto e pão, perfeito nada como um sanduíche improvisado para resolver uma crise existencial, peguei uma frigideira acendi o fogão, o som do fogo acendendo trouxe uma sensação estranhamente normal e confortável, por alguns segundos, parecia que o mundo tinha voltado ao normal.
Peguei um ovo, quebrei na frigideira, acendi o fogo e o cheiro começou a se espalhar.
Até que uma luz forte e quente me chamou a atenção, olhei para baixo e era o amuleto, ele brilhava, não um brilho fraco, mas sim intenso quase pulsante, meu coração disparou.
— Não! Agora não.
O ar parecia estar diferente, olhei lentamente para frente e paralisei, a frigideira, os pratos, talheres e até mesmo o liquidificador todos estavam flutuando, meu cérebro bugou por dois segundos, dei um passo para trás, uma colher começou a girar no ar, pratos estavam perto da pia.
— AAAAAAAAAAAH! — Já gritei desesperado.
Institivamente fui abaixando minha mão devagar e tudo que estava flutuando foi voltando ao seu devido lugar, fiquei parado tentando entender se eu tinha entrado num surto coletivo sozinho, olhei para minhas mãos, para o amuleto e depois para a cozinha, ok preciso sair desse lugar, andei até a sala.
— Ok, eu definitivamente preciso conversar com a Safira. — Passei a mão no rosto.
Comecei a andar de um lado para outro e resmungando.
— Mas também, quem garante que ela não é maluca? apareceu do nada, pulou de um prédio, me conhece sem eu lembrar dela, sabe do amuleto e agora eu estou flutuando panelas na cozinha, que vida maravilhosa. — Cruzei os braços e pensei por alguns segundos.
— E como é que eu vou trazer uma desconhecida para minha casa?
Foi então que ouvi um barulho, “Tec’. Congelei, com coragem ou quase nenhuma dei três passos para trás e olhei lentamente para a cozinha, não tinha nada, franzi a teste depois virei o rosto e nada, respirei aliviado, deve ser coisa da minha cabeça, quando olhei de volta—
— AAAH!
Safira estava parada na cozinha, literalmente parada como se tivesse surgido do ar, meu corpo inteiro gelou, levei a mão ao peito.
— você quer me matar?!
Ela piscou confusa.
— O quê?
— Como “o quê”?! Você aparece do nada, do nada! Chega falando, assobia, joga uma pedra na janela, qualquer coisa, mas evita o silêncio!
Safira arregalou os olhos e depois começou a rir.
— Você se assusta fácil.
— Fácil?!
— Eu quase virei espírito agora.
Ela cruzou os braços, ainda sorrindo, mas então o olhar dela mudou, mais suave e
Mais acolhedor.
— Nicolas, o que aconteceu? você está precisando de ajuda?
Hesitei, olhei para os lados, depois apontei lentamente para a cozinha.
— Eu acho... acho que fiz os eletrodomésticos criarem consciência.
— O quê? — Ela franziu a testa.
Respirei fundo.
— Eles estavam voando, todos, Panelas. Liquidificador. Pratos, Tudo, E eu acho que fui eu.
Safira não pareceu surpresa, nem um pouco, o que honestamente era preocupante, ela apenas sorriu e disse:
— Então começou.
Um arrepio percorreu minhas costas.
— Como assim “começou”!?